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Revista Nutrir – Maio/2010 – Edição n°03 – O uso consciente dos recursos naturais e preservação de espécies

Matéria publicada na Revista Nutrir
Ano II – Número 03

“O uso abusivo de recursos naturais, o consumo exagerado, a degradação ambiental e a grande quantidade de resíduos gerados são rastros deixados por uma humanidade que ainda se vê fora e distante da Natureza” WWF-Brasil

Semeando o amanhã

Debate sobre o uso consciente dos recursos naturais e preservação de espécies animais e vegetais visa garantir o pão na mesa das futuras gerações

Por Silvia Marangoni

Pergunte a qualquer jovem o significado do conceito sustentabilidade e verá que ele muito provavelmente está familiarizado com o tema. Mas nem todos sabem que a definição é mais antiga do que se imagina. Ela foi criada há 23 anos, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas – a ONU. Na ocasião, a temática ambiental começava a vir à tona e a idéia de desenvolvimento sustentável foi descrita como “aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

Hoje, porém, diante da ameaça de que a Terra se torne um planeta inabitável para as futuras gerações, devido ao aquecimento global e ao risco de extinção de espécies animais e vegetais, foram necessárias medidas mais amplas e urgentes para chamar a atenção dos governos e da sociedade. E talvez isso explique o investimento maciço focado nas gerações mais jovens, por definição, mais dispostas a mudar hábitos.

Em 2000, a ONU, através de uma iniciativa chamada Pacto Global, ampliou o conceito de sustentabilidade. O objetivo era mobilizar a comunidade empresarial internacional em esforços conjuntos visando a adoção de práticas de negócios que contemplem valores fundamentais e universalmente aceitos nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção.

Ao todo, 10 princípios compõem a iniciativa, sendo três deles relacionados ao meio ambiente (veja quadro nesta reportagem). Hoje, mais de 5.200 organizações são signatárias do Pacto Global, e estão articuladas em 150 redes ao redor do mundo, todas parceiras necessárias para a construção de um mercado global mais inclusivo, igualitário e comprometido com o futuro do planeta.

No Brasil, mais de 500 empresas participam do Pacto Global. Além delas, governos e cidadãos conscientes procuram diminuir o tamanho de sua “pegada ecológica”, numa tentativa de minimizar os efeitos danosos da degradação do meio ambiente. Cada um de nós deixa um rastro, uma pegada proporcional ao estilo de vida que adota. A palavra “pegada” indica uma estimativa capaz de mostrar o tamanho de nossa marca de degradação. Ela indica até que ponto nossa forma de viver está de acordo com a capacidade que o planeta tem para oferecer, renovar os recursos naturais e absorver os resíduos que geramos, por muitos anos, a fim de garantir a sobrevivência humana.

As 10 diretrizes do Pacto Global

O objetivo do Pacto Global é encorajar alinhamento das políticas e práticas empresariais com os valores e os objetivos internacionalmente aplicáveis e universalmente acordados. Estes valores principais foram separados em dez princípios-chave, em áreas escolhidas por seu potencial efetivo para influenciar e gerar mudança positiva:

Direitos Humanos
» As empresas devem apoiar e respeitar a proteção de direitos humanos reconhecidos internacionalmente. » Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos

Trabalho
» As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva
» A eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório
» A abolição efetiva do trabalho infantil
» Eliminar a discriminação no emprego

Meio Ambiente
» As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais
» Desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental
» Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente amigáveis

Combate à Corrupção
» As empresas devem combater a corrupção em todas as suas formas, inclusive extorsão e propina

Dimas Rodrigues de Oliveira, engenheiro e sócio-proprietário da Nucleora – Projetos para Cozinhas e Lavanderias Profissionais, é um dos muitos empreendedores que têm buscado caminhos para evitar a poluição e esgotamento de bens naturais. Ele é enfático ao afirmar que devemos tirar da natureza o mínimo necessário e estudar muito bem o que fazer com o que será descartado, o lixo que produzimos. “Precisamos esgotar todas as possibilidades de reutilizar o que foi usado nos serviços”, diz. Segundo ele, que assina os projetos das cozinhas e áreas de alimentação das unidades do Serviço Social do Comércio (SESC) de São Paulo, todos os projetos da empresa utilizam conceitos de sustentabilidade há anos. “Antes de pensar nos equipamentos mais modernos que podem contribuir para reduzir o uso de energia, é preciso considerar outros bens naturais que têm grande potencial pra economizar esses recursos. É o caso das faces transparentes usadas para captar iluminação solar. Extrair o máximo da ventilação natural também faz parte de projetos sustentáveis, para diminuir a necessidade de uso constante do ar condicionado”, explica.

Tão importante quanto reduzir o consumo de recursos naturais é preservar o ecossistema e o habitat de espécies da fauna e flora que garantem a diversidade alimentar.

Preocupados com essa questão, muitos profissionais estudam o impacto da ação do homem no meio ambiente e as consequências disso na alimentação. O pesquisador Marcos Roberto Furlan, engenheiro agrônomo e professor doutor da Universidade de Taubaté (Unitau) é um deles. “As agressões ao meio ambiente reduziram significativamente as populações de árvores e arbustos frutíferos. Mesmo as herbáceas – consideradas mais resistentes aos estresses ambientais, por conta de seu ciclo anual e capacidade de reprodução por sementes – sofreram redução acentuada em suas populações”, explica.

Ele diz que, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), desde os anos 1900 cerca de 75 % da diversidade de plantas utilizadas na alimentação foram extintas ou não mais usadas como alimento. “Milhares de agricultores foram abandonando o cultivo de determinadas espécies tradicionalmente usadas para alimentação, interessados em cultivar outras de maior rentabilidade, como é o caso das monoculturas. A situação é ainda mais grave se considerarmos que, dentre toda a alimentação utilizada pela população, 75% são geradas a partir de apenas doze espécies vegetais – como arroz, soja, milho, batata, trigo, feijão – e cinco espécies animais, como bovinos, suínos e aves”, explica.

Nos Estados Unidos e Canadá, por exemplo, quase que a totalidade da produção de ervilha (96%) está concentrada em apenas duas variedades, e seis variedades de milho respondem por 71% do total produzido pelos americanos. No Canadá, apenas quatro variedades de centeio, quatro de trigo e quatro de colza representam, respectivamente, 80,5%, 75,9% e 95,8% da produção total dessas culturas. Tamanha concentração representa grande risco para a segurança alimentar da humanidade, que fica à mercê do reduzido número de material biológico.

“A redução da biodiversidade e variedade de alimentos acarreta importante perda na qualidade nutricional da dieta da população”
Marcos Furlan, engenheiro agrônomo e pesquisador

Para Rafael M. Claro, mestre em Saúde Pública e pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológias em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (NUPENS/USP), a redução da biodiversidade e variedade de alimentos acarreta importante perda na qualidade da dieta da população. “Do ponto de vista nutricional, essa redução de variedade na oferta de alimentos tem impactos muito negativos. Basta lembrar que os vegetais, principalmente frutas e hortaliças, são grandes fontes de vitaminas e minerais necessários ao bom funcionamento do organismo. Além disso, possuem substâncias bioativas extremamente saudáveis e que não podem ser substituídas por complementos nutricionais ou produtos farmacêuticos”, explica.

Outra ameaça à biodiversidade é a substituição de áreas nativas da mata de Cerrado por culturas como a da soja, utilizada na produção de alimento, bicombustível e de outros produtos da sua agroindústria. O Cerrado é a segunda maior formação vegetal brasileira, mas hoje possui apenas 20% de sua área original, de 1,8 milhões de quilômetros quadrados. A estimativa é de que nele vivam 10 mil espécies, 837 espécies de aves e 161 de mamíferos.

Uma pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), em Piracicaba, interior de São Paulo, mostrou que a soja é a matéria-prima mais viável para a utilização imediata na produção de biodiesel, pois seu processo produtivo é mais econômico do que o de concorrentes como girassol, mamona, dendê e caroço de algodão.

Mas não é só para dar lugar à agricultura e seus diversos fins que a natureza vem perdendo espaço. Estudos realizados recentemente pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que cerca de 70% da população brasileira vivem em áreas de domínio da Mata Atlântica, que já perdeu 89% de sua cobertura original. “Em um cenário de tamanha devastação, é perfeitamente natural acreditar que muitas espécies foram extintas sem nem mesmo terem sido catalogadas. Ainda que muitas delas, utilizadas tradicionalmente para a alimentação – como a castanha-de-baru, o feijão canapu e o palmito-juçara – não figurem diretamente na lista de espécies sob risco de extinção, sua manutenção está igualmente ameaçada”, explica Rafael Claro.

É mais do que chegada a hora para que governos, organizações internacionais, sociedade civil, setor privado, gestores ambientais e outros atores trabalharem juntos para enfrentar esses desafios e desenvolver estratégias apropriadas de combate às agressões ao meio ambiente. O desafio é grande e exige comprometimento em todos os níveis. Cabe a nós buscar informações e adotar formas de minimizar os efeitos de um modo de vida que está levando o planeta a esgotar seus recursos. Não é mais possível nos darmos ao luxo de ficar à margem desse debate. Repensar hábitos e racionalizar o consumo de bens naturais, seja côo empresário, gestor público ou usuário desses bens, tornou-se uma questão vital.

O tamanho da sua Pegada Ecológica

A World Wide Fund For Nature, no Brasil traduzida como Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil), é a maior rede independente dedicada à conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de quase 5 milhões de associados e voluntários. No site da WWF-Brasil (www.wwf.org.br) é possível calcular o tamanho de sua pegada ecológica e conhecer o impacto de seu estilo de vida sobre o planeta. Ao responder as 15 perguntas on-line será feita uma estimativa sobre a quantidade de recursos naturais necessária para sustentar suas atividades diárias. O resultado sai na hora. E as sugestões para reduzir sua pegada, também.

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